Meu lado dona de casa
A vida inteira eu morei com meus pais. E entre convenientes e inconvenientes, sempre escolhi a primeira opção e permanecerei morando com eles quando voltar do Canadá, contrariando toda a cultura norte-americana que já me é suficientemente impregnada pelo cinema, seriados e fast foods! Eu amo minha família. Desculpa!
Porém neste tempo que estou morando mais por minha conta (tenho roommate, mas é diferente), reparei algumas coisas.
- Eu gosto de cozinhar. Nem que sejam os dois únicos pratos que sei fazer: crepes e macarrão.
- Amo receber visitas. Engraçado… achei que não gostasse tanto… o problema é só que todo mundo acaba dormindo aqui no chão.
- Arrumo a cozinha e não vejo problema nisso! Se cada um cuidar do seu próprio copo, melhor.
- Lavar roupa é uma tarefa fácil quando você não usa roupas chiques.
- Não gosto de andar e não gosto que andem de sapatos na minha casa.
- Um banheiro limpo é imprescindível.
- Ainda tenho muito o que aprender sobre reciclagem.
- Apagar as luzes é importante. Sempre que puder. E diminuir o aquecedor antes de sair é muito relevante para evitar incêndios.
- A vida com carpete propicia um andar mais macio, mas dá alergia e suja muito fácil. Tenho saudade de varrer a casa.
- Tive problemas na descarga. E passamos dois dias usando o banheiro do shopping por causa disso! Agora aprendi como funciona a borrachinha lá!
- Tenha sempre em casa: papel higiênico, sal, manteiga, leite, queijo, pão e alguma wireless. O resto a gente corre atrás.
Beleza americana
Esta cidade é banhada pelo oceano pacífico, tem vista para algumas das mais lindas montanhas do mundo, possui parques belíssimos e arquiteturas modernas que fazem contraste com cenários europeus. É uma cidade com excelente transporte público, bibliotecas exemplares, ótimas universidades, shoppings, praças, áreas de recreação, centros comunitários, grandes hopitais etc etc. Mas é uma cidade com um lado triste que nunca vi em nenhuma outra que estive.
A questão é que não sei o que é mais fácil conseguir em Vancouver: sexo, drogas ou rock’n'roll.
As drogas fazem parte do lado estúpido da cultura norte-americana. Até os professores brincam que a gente que não pode sair de Vancouver sem ao menos experimentar. Try me.
Não sei como, eles não percebem que os milhares de homeless que dominam (sim, dominam) esta cidade minúscula vieram de uma vida de usuários de drogas. E continuam nela. É a cidade com o maior número de loucos que já vi. Não há um único ônibus que eu pegue em downtown que não tenha dois ou três malucos encarando os passageiros, cambaleando entre as cadeiras ou gritando para o nada.
São pessoas que eram para ser bonitas, mas lá pelos vinte e poucos anos já estão cheias de rugas, com a pele meio verde, cara de vômito, olhar perdido e dentes podres. Não, isso não tem o glamour que as bandinhas de rock tentam vender pra gente…
Por isso, mesmo sendo uma viagem maravilhosa e eu me sentindo a pessoa mais sortuda do mundo, Vancouver as vezes consegue me deixar meio pra baixo. Mesmo quem não é homeless parece não ligar muito para a beleza da cidade. O povo joga papel no chão, anda fedendo pelas ruas, parece nunca usar guardanapo e todos os banheiros dão nojo.
Na noite canadense uma alucinação coletiva parece dopar a galera. Dentro dos night clubs, tudo passa a sensação de fast food. E sem nenhum tempero. Perguntou o nome da garota, pelo menos? Ah, os canadenses… esses seres estranhos, que se vestem como palhaços, rebolam como mulheres e se portam como coelhos. Definitivamente, alguns lugares ali na Granville, são uma total perda de tempo. Trust me. Nenhuma micareta no Brasil chega perto do que acontece aqui.
No meio desta onda, encontramos pessoas boas. Como sempre. Daí o perigo de expor esses casos e lançar um possível preconceito para o mundo afora. Minha host sister, por exemplo, é linda, inteligente, fina e muito legal. Meus amigos canadenses também são. Meus vizinhos de cima são um casal fofo. E minhas colegas de dança também são adoráveis. Existe beleza na cultura norte-americana. De verdade.
Talvez eu estivesse andando nos lugares errados, ou talvez eu só esteja com saudade do Brasil agora. Vancouver encanta a princípio, assusta em seguida e entedia depois. Falta uma essência aqui. É o que tenho visto. E, finalmente, entendo o que aquele filme tentava me dizer…

Mas estou bem. Sim! O rock’n'roll é muito legal!


