Te encontro pelo mundo
Coloco uma das músicas que marcaram a nossa vida canadense: “blame it on the pop” – mix do DJ Earworm. E começo a escrever este que deve ser o último post do meu trem.
A gente sabe que quando uma amizade é verdadeira, ela sobrevive à distância, ao tempo e às mudanças climáticas. A gente sabe que quando compartilhamos a melhor fase da vida com alguém, aquilo impõe reencontros.
Mas passa também por nós um aperto no coração ao lembrar que cada um aqui mora numa cidade diferente, num país diferente, num continente diferente. Bom, pelo menos eu tenho a Little Lívia de vizinha!
Nestes dias, fizemos amizades mais que especiais. Suportamos as diferenças culturais. Rimos das manias de cada um. Compartilhamos os mesmo acentos no metrô, a mesma faca nos restaurantes (que insistiam em nos dar colher para cortar as coisas) e a mesma vontade de conhecer tudo e todos.
Vancouver me mostrou algumas das pessoas mais interessantes que já conheci. E estas mesmas se despediram da gente prometendo que, quando quisermos, podemos visitá-los, onde quer que seja, e com hospedagem e uma recepção calorosa. Isso bate no fundo do coração e me faz ver que não existe, de verdade, dinheiro mais bem gasto que aquele que se gasta com turismo. Isso porque o turismo abre espaço para pessoas que, normalmente, você não teria a oportunidade de conhecer. E conhecendo o outro, nos tornamos mais mais pré-dispostos à paz.
Ontem nos despedimos da escola, vimos a tocha olímpica, corremos junto com ela. Caminhamos por Vancouver, aproveitamos os fogos e o clima gostoso de uma cidade olímpica. Ontem foi especial. E hoje é dia de fazer as malas.
Para cada item que coloco na bagagem, um flash passa pela minha cabeça. Foram dias de sol, dias de chuva, de neve, shows de vampiros, lanches calóricos, jantares entre amigos, concertos espetaculares, aulas divertidas, noitadas sem álcool, muitas caminhadas, gargalhadas, parques, montanhas, aulas de dança… Compras em chinês, trabalhos com chocolate, conversa com estranhos, ruas iluminadas, bibliotecas perfeitas…
Durante todo esse tempo em Vancouver, as lágrimas não me fizeram companhia. Era tanta felicidade que nem a saudade conseguia me abater. Ficou fácil ver que este planeta tem realmente pontecial para ser um lugar maravilhoso. Fui feliz em Vancouver. Muito! E ainda sou e estou feliz. Mas agora… Agora eu vou chorar.
Jogos de Inverno, você e a tocha olímpica
Não é segredo que escolhi vir para Vancouver devido à paixão por patinação no gelo. Uma cidade sede das olimpíadas de inverno me parecia muito convidativa para estudar inglês, dança, fazer novos amigos e sentir um pouco de frio.
Desde a final dos jogos olímpicos de Torino, em que, sentada no sofá da casa da minha avó, eu acompanhava Avril Lavigne prometendo uma sensacional olimpíada de inverno nesta cidadezinha do Canadá, a minha mente começou a trabalhar (e os canadenses também). Patinação no gelo, para mim, é a forma mais sublime de atingir qualidade, técnica, beleza e equilíbrio em um esporte. Ver essas pessoas deslizando sobre uma lâmina fina me inspira, emociona e convida para uma vida mais do que eu sou. De verdade.
Por isso hoje é um dia especial.
Hoje começam os jogos olímpicos de inverno de Vancouver. A cidade finalmente está toda pronta, organizada e musical.
Pelas ruas, diversos telões instalados para que todos possam acompanhar a espetaculosa cerimônia de abertura. E, na frente da escola, a tocha olímpica, carregada desde a Grécia, tem sua passagem marcada para uma e meia da tarde (19h30 para os brasileiros). Ontem, quando eu voltava da última aula de dança (sim, eu fui!!!) tive a surpresa de encontrar uma das tochas que carregará o fogo sagrado dentro da estação de metrô. Tirei foto, achei o máximo, mas estou com o cabelo muito pós-moderno para publicar tal imagem.
Em compensação, vou colar algumas coisas de patinação no gelo. Afinal, é isso que me trouxe para a metade de cima do mundo. E que bom.
Hoje a escola está bombando!
Tivemos uma apresentação sobre o nosso hotel imaginário (minha amiga peruana, a amiga japonesa e eu). Depois, na hora do almoço, fomos convidadas a participar de um flash mob em que todos congelavam fingindo estar lendo um livro. Adorei!
Agora, aqui na informática, o pessoal está divulgando o vídeo que fizeram ontem.
E ouvimos dizer que aqui nas olimpíadas vai ter um flash mob de dança. Só não sei onde, nem que dia. Espero que dê para pegar, porque o flash mob do povo de calcinha no metrô foi ridículo.
So you think you can dance?
Minha perna está doendo como se uma madeira velha tivesse sido colocada no lugar dos meus músculos. Estou mancando para ir da cama até a cozinha. E chego a cogitar gritar de dor toda vez que tenho que sentar ou subir escadas.
Nunca imaginei que uma aula de dança pudesse fazer isso comigo. A idade e a falta de preparo também não ajudam, mas como pode uma única dança acabar com uma pessoa tão bem intencionada…
Tudo começou quando a Mari, uma amiga brasileira, mostrou-se o folder de uma escola de dança daqui de Vancouver (Harbour Dance Centre). As aulas poderiam ser contínuas ou apenas uma por 14 dolares. Eu já era muito animada com o jeito “so you think you can dance” de coreografar a vida. Em Rocky Moutains, ficamos, minha amiga australiana e eu, boa parte da última noite de viagem assistindo ao show!
Com aquele folder, meus olhos brilharam e, no dia seguinte, estava na aula de hip hop aprendendo a fazer pose.
Mais pra frente, ingressei na aula progressiva de hip hop pussy cat dolls, que era um hip hop só para menininhas. Divertidíssima, a professora estimulava que fizéssemos aula de salto alto e cara de perigosa. Como eu não nasci pra ser sexy, fiquei no tênis mesmo.
Aprendemos passos da Britney, da Beyoncé, da Nicole. Dançar é tão gostoso que a gente fica torcendo para a professora esquecer que já estava no fim da aula. E a aula é tão intensa, que eu saio do centro de camiseta, bufando de calor, e todo mundo me pergunta na rua como não estou com frio.
Ontem foi minha última aula, ensaiamos uma música animadíssima chama “How long can you go” (só não tente imaginar a letra). Aliás, quem quiser pegar o inglês das ruas, recomendo muito fazer aulas de dança no exterior.
Mesmo finalizando os ensaios, ainda tenho direito a uma hora extra de aula se quiser. O problema é conseguir voltar a mexer normalmente.
Assim que isso for possível, podem me aguardar, a velhinha aqui vai rodopiar por aquele salão novamente!
(vídeo feito na minha sala, mas com turma diferente)
Saudade, esta palavra…
Estou na escola. E o computador aqui nao tem acentuacao.
Eu estava confortavelmente no sofa ha 10 minutos, quase tirando um cochilo quando senti um toque no meu joelho. Era o Azuuz! Um amigo da Arabia. Alias, meu arabe preferido!!! Ele ficou de me ensinar a dancar hip hop, mas sempre desencontramos.
De qualquer forma, ele me dava lugar nas filas da cantina e, de vez em quando, almocava comigo e contava um pouco dos planos pra o futuro: estudar computacao em Vancouver. Por isso, achei que ele ficaria em Vancouver por muitos e muitos anos ainda.
Acontece que hoje ele veio se despedir de mim. Tem que voltar pra Arabia Saudita para atender um chamado da familia. So volta para Vancouver quando eu ja tiver ido… Uma pena. Ele eh legal… fora que ainda nao me ensinou a dancar hip hop.
Saudade eh uma coisa complicada. Ela se multiplica muito rapido. E chega num ponto que nao sabemos mais como cura-la. Eu morro de saudade do Brasil. E morrerei de saudade de Vancouver. Nunca mais ficarei completa.
Neste ultimo fim de semana, varios amigos se foram… Varios brasileiros, mas de diversas partes do nosso imenso pais. Nao sei quando os verei novamente. Se verei. A gente tem facebook, orkut e msn… mas acostumamos a lanchar e caminhar todos em bando. Eh diferente.
Ao mesmo tempo, quero ir tambem. E reencontrar meus amigos, meus pais, meu namorado, meus avos, meus primos e ate meu cachorro. Aqui em Vancouver vai ficar muita gente que eu ja posso dizer que amo. E muita gente vai voltar para seus paises. O eterno drama das despedidas. E de nao poder guardar todos os afetos numa bolsa a tira-colo. O eterno drama de soh ter “saudade” na nossa lingua, mas senti-la em todas!
Azuuz me mostrou um outro lado dos arabes que eu nao imaginava. Ele eh gentil, divertido e muito atencioso. Antes de sair, fez um ultimo pedido: ” keep in touch forever, ok?!”.
Amizade pode ser algo tao forte quanto saudade. Concluo.
Mas agora, metade de mim eh saudade. E a outra metade tambem.


