Os pontos finais
Último dia do ano. Último dia de homestay. Pela primeira vez, eu alugo um apartamento.
Cartinha com embrulho de presente para a família Chocolate sobre a mesa do café. Ontem de noite eles me deram uma cartinha e vários chocolates. Na cartinha, cada um assinou e alguém fez a gentileza que assinar pelo cachorro e o gato também.
Hoje durmo na casa nova. Não sem antes dar uma festinha da virada pra galera da escola. Vinte convidados. Mas a gente conhece todo mundo. E todo o mundo!!!!
O ano de 2009 foi tão agitado que poderia ser contabilizado em uns sete ou oito pequenos anos. Do início da jornada até aqui, muita coisa mudou. Muito suor escorreu. E também algumas lágrimas. Mas foi um ano sensacional. Inacreditável. De grandes transformações. Grandes lutas, emoções e grandes conquistas.
Vancouver é tão longe de Belo Horizonte e, ao mesmo tempo, eu sinto todo mundo tão próximo que a saudade que fica é só a boa. Claro que sinto falta das manhãs ensolaradas, das noites de Eddie Burguer, e das tardes de trabalho e de brincadeiras com o Peter.
Os finais de tarde em Beagá eram mais amenos. O dia despedia aos poucos e dava lugar à lua sem muita pressa. Em Vancouver é tudo muito rápido. Tudo fecha rápido, tudo esfria rápido, a noite vem correndo e, quando a gente assusta, não existe mais luz. Mas fazer amizade aqui também é mais rápido, mais profundo e logo fica todo mundo irmão.
Assim será nosso último suspiro de 2009. Um ponto final bem dado numa história bem movimentada.
Que 2010 seja um ano de mais novidades, mais conquistas, mais mudanças. Muita paz. E muita luta. Se é que me entende!
“E se ainda quereis dilatar mais a vida, uni à alegria vossa a alegria do semelhante. Uni vosso esforço ao de outros e sentireis, assim, que vossa vida adquire mais corpo, porque o que os demais sentem, por reflexo o sentireis também vós. É como se todas as vidas constituíssem uma só, gigantesca. Se por vossa conta, por exemplo, desfrutais de dez episódios, nesta outra forma podereis desfrutar de cem, de mil, de inumeráveis acontecimentos; porque cada alegria, cada benefício que alcance vosso semelhante será vosso e desfrutareis dele. E, sendo assim, a existência adquirirá outro significado.” da logosofia
Ouvindo: Life Is Beautiful – Vega 4
Festinha na família Chocolate
Ontem teve uma festinha de final de ano na família Chocolate. A festa começou em torno de 6h30 da tarde e acabou lá pras 9h da noite. Ou seja, aqui as festas são mais rápidas!
Mas foi muito gostosa. Veio uma família de americanos, uma de venezuelanos (com sogra e tudo), uma amiga da Silvia (minha host sister) que é canadense e uma senhora alemã de 83 anos, muito simpática.
Eu cheguei mais tarde para o jantar, pois quis deixá-los a vontade. Mas arrependi, deveria ter descido antes porque a conversa estava muito legal e todos foram muito gentis comigo. O meu host father fez o jantar e estava muito gostoso. Digno de um chef formado na Suiça!
Havia uma menininha de uns dois ou 3 aninhos. Incrivelmente fofa! Ela chama Ruby. Filha do casal americano. Na verdade, só a mulher era americana, o homem era mexicano, eu acho. Bati um papo longo com a garotinha.
Filmei o pessoal!
Depois que jantei, subi de novo para deixar a câmera no meu quarto e as meninas (Silvia e Natasha) foram me chamar para comer sobremesa. Tinha bolo de chocolate, fondue de chocolate (que o Senhor Edward me ensinou como fazer) e mais um tanto de coisa gostosa.
A família da Venezuela era bem falante e quando a matriarca deles empolgava, ela começava a falar em espanhol e todo mundo ficava tentando entender. Não posso negar que adorei fazer o papel de tradutora!!! Falei que as mulheres da Venezuela eram famosas por sua beleza e aí o assunto se voltou para o Brasil, de repente! Falaram que as mulheres brasileiras eram famosas pela sensualidade. Eu disse que não sentia isso assim e que provavelmente era mais marketing do que realidade. Aí eles falaram que os biquinis brasileiros eram os menores e eu comentei que andei olhando algumas roupas aqui no Canadá que eram muuuuito menores. Também comentei que nas festas canadenses que eu havia ido, as mulheres brasileiras eram as mais vestidas.
Aí as meninas (Silvia e Natasha) se interessaram por saber detalhes e eu contei como era. Elas assustaram. E depois comentaram que era muito mais interessante a pessoa ir vestida normal pra dançar, do que como a gente via por ai. Isso despertaria muito mais interesse, inclusive. Adorei elas.
A senhora alemã contou como conheceu o marido dela (já falecido) e contou que passou muito tempo num hospital, pois ela tinha algum problema de saúde que a impedia de deixar o nosocomio. Lá conheceu o homem da vida dela. Todos achamos linda a história, mas eu admito que não entendi bem coooomo eles se conheceram não.
Perguntaram se eu tinha namorado e eu falei que tinha. Aí a moça da venezuela falou que eu poderia arrumar um aqui e o outro aí. Sorri e disse que não tinha interesse. Ela riu mais e comentou que eu tinha cara de ser fiel, como ela era com o marido. E cutucou o marido!
Na despedida, a senhora alemã veio até mim e disse que simpatizou comigo porque eu interagia e que ela, sempre que via uma pessoa tímida, se perguntava “por quê???”. Ela não entende como algumas pessoas podem ser tão tímidas… E eu também não entendo bem isso…
Fui lavar os pratos e ajudar a arrumar a cozinha. A host mother falou que eu não precisava fazer isso. Eu disse que sabia que não precisava, mas queria ajudar. Ela ficou toda feliz. Disse que geralmente os brasileiros são os que mais comem quando se hospedam na casa dela, e que eu era uma exceção. (Uhu!) Falei que estava fazendo um esforço para não comer tanto, porque eu sou viciada em chocolate e aquilo era um teste pra mim. Eu gosto muito da forma como ela conversa comigo. Vejo que ela me observa profundamente e vice-versa. Acho que ela gosta de mim!
Antes de subir pro quarto, comentei com ela que acho legal a postura dela com os filhos e o tanto que eles brincam. E brincam superalto, até gritando e tudo! Mas é bem divertido. Ela riu e me disse que espanca eles quando eu não estou perto. Claaaaaaaro que era brincadeira!
Um dia de aventuras
Ontem a família Chocolate me levou para Cypress, uma montanha linda, para a gente esquiar. (lembrou de Jump Around, não lembrou?!)
Como a brasileira aqui tem zero noção da coisa, paguei uma fortuna por uma aula que me impedisse de morrer usando aqueles equipamentos. Foi ótimo. Aprendi coisas bem básicas, mas úteis. Tive apenas uma colega Romena na aula e fui atropelada por uma criança de quatro anos que esquiava com muita vontade quando eu finalmente conseguia dar minhas deslizadas.
Na volta, ficamos todos perdidos na floresta no início da montanha porque não lembrávamos onde estava parado o carro. Éramos a família Chocolate, mais uma família mexicana e uma venezuelana, tudo de amigos do meu host brother. Mandaram eu tomar conta das cinco crianças enquanto eles saíam atrás do carro. “Cuidado, pode aparecer um lobo, ou um urso…”, advertiram. Olha, que legal! Eu sei exatamente como reagir em caso de me deparar com um lobo ou um urso (oi?): Desmaiando.
Encontrado o carro, voltamos felizes para a casa, sãos e salvos. E com mais essa experiência na bagagem.

Ps familiar:
Vovó. Ontem foi seu aniversário. Tentei entrar em contato, mas os computadores deram defeito. Muitas alegrias para você! Muitas realizações. E, se a minha felicidade for também a sua, pode ter certeza que é hoje uma das maiores.
sua neta
Comemorações
Hoje (ontem já, né) tive um almoço natalino na casa da irmã do host father. Toda a família foi lá. O almoço foi bem típico de natal americano. Árvore com muitos presentes. Músicas medievais de fundo. Guardanamos de papai Noel. Peru recheado. Pessoas com roupas elegantes. Só assuntos legais. A gente começou a falar de problemas de drogas e fomos cortadas. Mas foi ótimo, porque eu gosto de festinhas de família.Não sou religiosa, então vejo essa data só pelo lado familiar mesmo. A comida estava deliciosa e eu ajudei a descascar os vegetais e a lavar os pratos (good girl!). O avô da família me mostrou um negócio que ele chama de Dog House (será isso mesmo?), que é tipo uma casa nos fundos da casa onde ele pratica os hobbys dele (acho legal isso). Ele tem o hábito de fazer desenhos e caligrafia. É nascido na Suiça e depois de um tempo de conversa percebi que ele não tem dois dedos… A esposa é falecida… Mas tudo bem.A noite feliz
Agora de noite a host mother bateu aqui na porta do meu quarto e eu quase não ouvi, porque estava mexendo no computador com o fone de ouvido, mas senti que era comigo e fui abrir a porta.
Ela estava com um embrulho grande de presente e uma caixa de chocolates e um bilhetinho de merry christmas!
Abri o embrulho e era um pijama completamente vermelho como a bandeira do canadá. Muuuuito gostoso! Experimentei por cima da roupa mesmo e ela falou que ficou ótimo. Acho que ela percebeu que eu estava dormindo há um mês com o mesmo moleton branco… hehe!
Agora vou experimentar uns chocolatinhos que eles fizeram.
Ah, hoje eu trouxe uma coisa para eles. Na escola o pessoal fez umas casas de biscoito numa competição de quem montava a casa primeiro. Fica parecendo um bolo gigante com mashmalow e tudo mais que engorda na vida. Sobrou um tanto e eu peguei um deles para não jogarem fora.
Era uma casinha com bonequinhos e árvore de natal, tudo de biscoito e balas e mashmallow e glacê e eu andando com isso pelas ruas de Vancouver. O povo passava olhando e alguns animadinhos comentavam “nice”!
Aí tinha um mendigo sentado no chão com um cobertor… Fiquei com dó. Fui oferecer a casa de biscoito e ele falou que não queria. ELE FALOU QUE NÃO QUERIA. Gente… eu estava com a Livia e o Cassio e ninguém acreditou que ele fez isso. Aff!
Depois da indignação continuei andando com a casa até a London Drugs, onde o pessoal queria comprar coisinhas. Lá perto um japa (ou coreano ou chinês, sei lá) perguntou se aquilo era comestível de verdade. Falei para ele provar um pedaço e ele pegou umas das árvores de natal e saiu todo contente!
No metrô tinha um menino chorando no colo do pai e a Livia falou para eu oferecer o troço pra ele. Oferecemos. Ele ficou meio desconfiado e o pai dele falou que ele poderia pegar, desde que não estragasse a casa. Ele tirou um pedaço do telhado, mas não fez falta. O irmão dele também pegou. E eles pararam de chorar! E a gente contou pra eles que tinha sido feito na escola, mas que, tirando a gente, eles não poderiam aceitar nada de ninguém que eles não conheçam. E o pai confirmou. “é, só se eu provar primeiro”.
Saí do metrô, peguei um ônibus. Todo mundo continuou olhando pro bolão (ginger house). Desci do ônibus. Andei três quarteirões. E cheguei em casa. O Alex abriu pra mim e eu “hohoho, merry christmas” e ele foi pegando o bolo e perguntando se eu que tinha feito. Não exatamente, mas falei que sim! Colocamos o bolo sobre a mesa, a Silvia pegou a chaminé, ele pegou a portinha. E comeu com leite. Perguntei se estava bom e ele fechou o olho e falou “delicious”. Ah, que bom que o troço não ficou para o mendigo…
I love the world
Observacao inicial: Estou na escola e, mais uma vez, o computador nao tem nenhum acento. Se tiver, nao sei como que faz…
Nem sei por onde comecar. A vida esta tao boa que chega a assustar. Tenho que ser uma pessoa muito do bem para merecer tudo isso. Muito!
Vancouver eh uma cidade muito variada, mas eu diria que tres tipos de pessoas se destacam aqui: os orientais, os mendigos e os brasileiros. Eh impressionante! Nao tem como escapar de nenhum deles. Estao por toda parte.
Ontem foi quarta-feira e quarta eh dia da cerveja de um dolar! Quando entramos (eu e Livia) no pub irlandes nao acreditamos no tamanho da mesa que nos esperava. Eram quase trinta pessoas. Todas lindas, animadas, divertidas e dispostas a conversar. Isso eh o paraiso para quem gosta de Comunicacao (Livia faz jornalismo, mas ainda vou convence-la a migrar pro Direito). Eh o paraiso para quem quer dar uma colherada num pedaco do mundo!
Nao bastasse a turminha boa aqui. A minha host family estah cada vez mais fofa. Ontem, no jantar, ficamos rindo de uns trocadilhos Portugues/Ingles e depois eu dei banho no cachorro. Ele nao via agua ha muuuuito tempo. E adorou ser esfregado e penteado no banho de caneca com agua quente! Fiquei imunda, mas meu host brother falou que levo jeito para a coisa e poderia ganhar uma fortuna dando banho em cachorros. Eh impressionante como eh facil ganhar dinheiro no Canada! O povo trabalha pouquissimas horas por dia e se da tao bem… Se bem que eu nao invejo quem trabalha pouco. Eu invejo quem ama o que faz! Inveja boa! Inveja boa!
Hoje eh Christmas Eve aqui. Na escola, de tarde, teremos uma festinha multicultural. O professor Tom estarah vestido de papai Noel e provavelmente vamos ouvir muito Jingle Bells. Talvez seja a parte do natal que eu mais goste: as musicas, as luzinhas, a neve… Ai, a neve! Eh realmente boa! Recomendo conhece-la!
Dizem que dia 26 de dezembro tem uma superpromocao em Vancouver e devemos chegar no maior shopping daqui (MetroTown) antes de ele abrir.
Dia 27, se tudo correr como planejado, devo ir esquiar com a familia Chocolate. Mas confesso que meu fraco eh pela patinacao. O ski nao faz mais a minha cabeca… Talvez snowboard… vamos ver!
A viagem para Rocky Moutains deixou saudades. Meu facebook aumentou em quase 100% o numero de amigos. E eu descobri que de todas as culturas que conheci ate agora, a menos simpatica eh a italiana. Sao os mais arrogantes. Eu nao quero ficar com essa impressao deles. Nao quero ter repulsa de povo nenhum do mundo. Ainda mais dos italianos, que sao sangue do meu sangue. Mas, por favor, algum italiano apareca e me prove que nem todos sao chatos, snobs, religiosos fanaticos, nem alucinados com drogas. Obrigada!
No mais, as outras pessoas que eu conheco, ainda que tenham suas diferencas culturais, sao muito ricas de historias interessantes e vontade de interagir e melhorar o mundo. Adoro minha colega russa, meu colega mexicano, nossos amigos venezuelanos, arabes, japoneses, koreanos, alemaes, etc etc!
Eh uma honra fazer parte deste grupo. Agora sou pequena pro tamanho da minha felicidade.
Boas festas a todos!
A família Chocolate
Minnie, a gatinha da família, está dormindo adoravelmente na minha cama agora… Eu sou encantada ela. Antigamente tinha preconceito com gato porque minha mãe já foi atacada por um gato há mil anos quando ela fez intercâmbio. Sempre pensava que“gatos são traiçoeiros”. Ah, nem são… Na verdade, nenhum animal, nem cachorro, pode se sentir ameaçado, ou ele vai tentar se defender com as forças que tem. É a lei da natureza, poxa. A gente tem que tentar entender e evitar esses conflitos o máximo possível.
Minnie é uma gata que atende sempre quando eu chamo e me segue até quando vou ao banheiro. Ela realmente se deu bem comigo. Se fosse um gato macho eu poderia fazer muitos mais trocadilhos, mas sendo, nós duas, meninas, fica por isso mesmo. Somos amigas e boas amigas!
Além dela tem o Bear. O cachorrão da casa. Ele é um meninão como o Peter. Mas é um pouco mais medroso, embora seja muito maior. Estou ensinando ele a esperar antes de pegar a comida e atender aos comandos “no” e “yeah”. Segundo a host mother, ele aprende mais rápido que o filho de 11 anos, uma vez que o garoto se recusa a escovar os dentes há dias. Aliás, dá dó isso. O menino é superinteligente, lê muito mais e muito mais rápido que eu, mas é ultra viciado em televisão e fica sempre há um palmo dela, além de odiar escovar os dentes. Não entendo isso… Já ofereci minha pasta de dente sabor chicletes pra ele, e mesmo assim, nada feito. Recomendei para a mãe que ela mande o oposto: que mande ele não escovar os dentes, porque aí ele vai querer. Funciona com o meu cachorro. Machos…
Apesar de o banheiro da casa realmente precisar de uma intervenção (ontem eu dei uma limpada secreta com papel higiênico, sabonete e água), a família é bem feliz. Antes eu achava que eles brigavam muito, mas depois descobri que eles gritam muito é para brincar, não brigar. E eles sempre brincam. Toda noite, fica a galera toda fazendo qualquer coisa na sala e na cozinha que é do lado. E estão sempre rindo, se divertindo e ensinando uma coisa pro outro. É bem legal isso. Quero ter algo parecido um dia. Mas em Beagá a gente trabalha o dia inteiro e estuda de noite. Só sobra tempo de madrugada, que é quando acertamos os e-mails, tomamos banho e usamos os últimos minutos do dia para fazer qualquer coisa que ficou pra trás. Mas eu vejo e sei que esse tempo em família é precioso. Construtivo e lindo. Realmente valorizo.
A host mother costuma me fazer companhia durante o jantar. Ela adora conversar e me contar como as coisas são em Singapura e na China. Eu já identifiquei diferenças, como, por exemplo, em Singa, eles não comem cachorro. Ainda bem!
Hoje ela me contou sobre a lua-de-mel dela com o senhor canadense no México. Em Cancun. Disse que ficou em um hotel 5 estrelas com todo tipo de comida e bebida disponível, além de inúmeros shows para assistir por mil dólares cada pessoa, durante 7 dias. Se for pensar, até que não é tãaaaaaaaaao caro para uma super lua-de-mel, ou viagem com os amigos… Tá bom, super lua-de-mel!
Outro dia cheguei em casa tossindo igual cachorro porque tinha congelado nos 7 graus negativos do ponto de ônibus (e eu estava só com um moleton e duas blusas finas, péssima ideia). A host mother fez um chá curandeiro para mim. Jogou tanta erva e casca de fruta na água que eu acho que até terra tinha no meio. Bati uma foto. Respirei fundo e tomei tudo. Dois minutos depois, eu estava boa e não tossi mais. Meus pais ficariam orgulhosos de ver o tanto que eu estou não-chata com comida e bebida aqui. Hoje tinha milhões de coisas indecifráveis no meu prato, inclusive que me lembravam quiabo, mas a fome era tanta que uma hora dessas já está tudo virando celulite no meu corpo. Geralmente a comida da host mother é muito apimentada, mas eu gosto porque mata os germes e esquenta. Porém, meu preferido é o quiche (quirche! Ahaha) do host father, porque ele é chef, e faz um quiche de salmão divino. Tudo que eu provei dele, até agora, é muito gostoso. Mas estou, de verdade, evitando o chocolate, como um viciado que evita a cocaína. Mesmo assim, alguns coleguinhas, muito maus, insistem em me oferecer vários pedaços cheirosos e atraentes quando estou na escola. Eu tenho sido brava com isso. De verdade.
Aliás, outro dia, enquanto eu lavava a roupa (deu tudo certo), a host mother me mostrou que havia um quarto subterrâneo na casa. Era uma suíte linda, com um banheiro limpinho, frigobar e som. Tudo! Ela perguntou se eu gostaria de mudar para lá e que o único problema é que era subterrâneo e eles usavam para armazenar cerca de 80 quilos de chocolate (porque eles fabricam chocolate, já comentei isso aqui, não?). Hum… vamos pensar… Um quarto maior, mais divertido, com um banheiro só meu e 80 quilos de chocolate… hum… Não aceitei. Eu sei que é estupidez. Mas já está tudo arrumado aqui em cima. E eu não sei se a Minnie sabe o caminho pra lá. Fora que já me acostumei a trocar de roupa dentro do armário… Viva a capacidade humana de adaptação. Viva!
A primeira vez
O primeiro banho, a primeira troca de roupa, a primeira refeição… é tudo muito diferente e até um pouco perdido quando se está em intercâmbio.
Assim que cheguei, como haviam sido, mais ou menos 24h de viagem, espera no aeroporto, troca de avião etc etc, o que eu mais queria era tomar um banho. E, não sei como, eles notaram isso…
O banheiro é bem menor do que eu estou acostumada e um pouco mais sujo também (cabelos pra todo lado), mas é um banheiro quentinho com chuveiro e sanitário e isso me alegra. Peguei minhas coisas, tirei a roupa (pararararan), entrei naquela banheira vazia e virei a torneira. Ao invés da água sair pelo chuveiro, saiu pela torneira da banheira. Virei o troço pro outro lado, nada, pro outro, nada. Nada. Nada. Apelei. Peguei a água da torneira e fui jogando por cima de mim. Uma cena linda… Mas sempre pode ser pior. Esse é meu lema. Minha tia, uma vez, visitando outra cidade, quebrou o box inteiro em mil pedaços. Assim, só porque ela abriu o box e ele se espatifou. Então, eu ainda estou no lucro!
Na hora de trocar de roupa, outro problema. A janela do meu quarto não desce a cortina. Odeio persianas com todas as forças do meu ser. Nunca me dei com esse troço. E como meu quarto tem vista exatamente para a frente da janela do banheiro da casa do lado, o jeito foi trocar de roupa dentro do armário para não dar showzinho pra vizinhança. O armário não é pequeno como no Brasil. Ele é entrável e não tem cheiro de mofo, mas eu certamente preferia fazer as coisas fora do armário. Aliás, como tanta gente…
Fui brincar com o cachorro (além dele tem a gata) que é lindo, preto, grande e tem o olhar do Peter!!! É mistura de chow chow com labrador. Ele ama pegar coisinhas, mostrar que está com a coisinha e sair correndo. Igual o meu! Quando pula em mim, fica a um palmo de ser do meu tamanho. Alex foi comigo brincar. Ele é legal (ele, Alex!). Eu gostei tanto desses bichos daqui que tenho que me policiar para não parecer louca!
Minha primeira refeição foi uma sopinha ótima acompanhada de uma torta de limão deliciosa (já que o senhor da minha família é formado em culinária suiça). Mas não foi muito. E eu espero que continue não sendo muito, pois tenho medo de engordar demais.
A senhora da minha família é de Singapura. Conheceu o marido quando ele cozinhava lá. Ela é a mais conversada de todos. E odeia frio. Entreguei os presentes que minha mãe e minha avó prepararam para ela. Ela amou. Amou principalmente as rendas da minha avó. Ficou impressionada e insistia que minha grandmother viesse pra Vancouver. Quem sabe, né, Vovs?!
Para a menina de 16 anos (Silvia), dei uma manteiga emoliente pink da Granado, que é a farmácia da família real brasileira. Ela ficou muito feliz e falou pra gente dar uma volta dia desses se eu tiver tempo. Ela já me adicionou no facebook e fica me chamando de Gee Gee (Didi para eles). A Silvia é linda. Por ser mistura de uma senhora de singapura com um canadense, ela tem feições orientais, mas um sorriso ocidental. Ela vive no quadro de honra da escola, canta no coral (uma longa e boa história essa) e se veste como um mangá. Eu achava que, sendo mais velha, seria uma inspiração para ela. Mas vejo que, pelo contrário, ela que é uma inspiração para mim!
A mãe da família e o Alex, foram comigo mostrar o caminho para a escola. A ida não é difícil, mesmo de ônibus. A volta é que me confundiu (outra longa história).
Deste passeio, passamos na biblioteca (que é enorme, linda e muuuuuuito legal) para o Alex deixar todos os trilhões de livros que ele e a irmã lera durante duas semanas (que vergonha, eu nunca conseguiria ler tanto). E fomos num lugar fantástico chamado Science World. É uma bola parecida com a bola da Epicot na Disney. E tem mil coisas legais de ciências lá. E tudo muito interativo, tipo roldanas que você pode puxar seu próprio peso, cobras vivas que você pode acariciar, teclado de piano no chão que você toca com o pé (toquei Pour Elise… ok, só o comecinho!). Tinha também uma parte sobre reprodução humana que meu irmãozinho ficou com vergonha de olhar e uma parte sobre insetos e outros pequenos animais que me lembrou muito o meu curso microcosmos do carnaval. A senhora Jane (minha hostmother) disse que eu era a única menina que ela conhecia que gostava de vermes! Foi um elogio. Eu sei.
Vancouver é dominada por orientais. Algumas estatísticas apontam para 30% de asiáticos, mas hoje vi uma que dizia serem 53%. Acredito nesta. Para todo, um olhinho puxado. E muita variedade cultural. Neste Science World mesmo, vi para todo lado algo raríssimo no Brasil: mulheres de burca. Inclusive pedindo para que batesse fotos para elas. Essas mulheres tem filhinhas tão bonitas, que acho um desperdício que andem tão tampadas… Eu sei, professora de Antropologia, essa é a cultura delas… mas não entendo. Trato bem e tal. Mas que eu não entendo, não entendo…
Voltamos pra casa. Eu estava meio exausta. Fui arrumar meu quarto, já que não tenho internet em casa… e Minnie, a gatinha da família veio me visitar. Sentei na cama e ela veio do lado. Miando fofamente. O pelo era convidativo para um cafuné. Que gracinha… Caímos, eu e ela, no mais merecido sono no aconchego do meu novo quarto.
