I’m not Sarah
Duas confusões, curiosamente, tem sido comuns comigo aqui em Vancouver. A primeira é que muita gente acha que eu sou francesa. O que me deixa lisongeada e feliz, já que as mulheres francesas são lindas, elegantes e meu filme preferido é Amelie Poulain. Porém, quando chegam falando francês, é um pouco constrangedor quebrar a graça da coisa com um “I’m brazilian”. A outra confusão é ainda mais estranha. Embora o título do texto já tenha dado uma boa dica, eu explico.
Outro dia, caminhando por Chinatown. Encontrei um jardim maravilhoso. E, por estar sozinha, resolvi me aventurar! Foi uma sensação muito boa. Descobrir esses pedaços de paraísos perdidos no meio da cidade faz meu coração bater mais forte.
Então, ao sair do jardim por uma porta diferente da que entrei, como era de se esperar, fiquei perdida. E fui andando sem rumo, até chegar no meio de uma concentração de homeless. Percebi que estava na direção errada e virei outra esquina. E outra. E outra. Até que parei em uma delas completamente tonta e sem noção de onde estava. Nisso, um senhor chinês se aproximou e perguntou “Sarah?”. E eu “hã?”. E ele “Are you Sarah?”. “No, I wish I was,cause that’s a beautiful name”. Ele riu amistosamente e eu continuei a caminhada. Descobri que tinha me afastado tanto de onde queria ir, que tive que pegar um ônibus pra voltar. Mas ótimo, transporte público aqui é muito fácil e a gente só paga um ticket por mês (tenho que escrever sobre isso, né).
Ontem, depois da aula, saí para mais uma caminhada. Desta vez, aqui perto do meu apartamento (não, eu não larguei a família Chocolate por nenhum problema, o contrato é que acabou mesmo!). Encontrei algumas coisas bem legais aqui perto. Um restaurante italiano lindinho, uma corte de justiça, uma loja de coisas por um dolar, e uma lanchonete de bairro, confortável e muito convidativa. Já estava com aflição da padronização de tudo (Starbucks, Subway, Burguer King, Mac Donald’s, Waves café… era só isso em toda rua). Entrei. Um canadense bem rústico veio me atender. Pedi milk shake de chocolate como toda boa americana. E para comer, falei que queria um cheeseburguer com muito cheese. Ele perguntou se eu queria que acompanhassem fritas ou salada. Pedi uma opinião e adorei a sinceridade: “fritas”.
Ao sair do Burguer Heaven (esse era o nome do place), que me perdoem os muito polidos, mas eu estava cheia. E com um pacote de fritas embrulhadas que não aguentei. Deixei as fritas em casa e precisava caminhar para valer agora. Ou não entraria em nenhuma calça que trouxe pra cá. Fui para o outro lado do bairro e, ao subir uma ladeira que nem de perto me lembra Belo Horizonte, um homem, lá do alto, gritou “Sarah!”. Achei que não era comigo, mas entrei em outra rua. Ele começou a vir na minha direção e gritar pelo nome da moça de novo. Aí percebi que ele estava me confundindo e, sendo noite e vazia a rua, corri. Vá saber! Ele gritava “Sarah, what are you doing?”. Pensei em parar para explicar. Mas podia não dar tempo. Entrei na estação de metrô. Peguei o primeiro skytrain e desapareci para downtown. Foi até bom que lá me inscrevi na biblioteca pública enorme. Quando a atendente me pediu para escolher um nome para login, quase embarquei na tentação de escrever Sarah, mas na preguiça de explicar a história, coloquei meu nome real!
Mendicância
As vezes vemos um homem lindo, loiro, de olhos azuis, com calça de ginástica, moleton e tênis da Adidas e ele se aproxima de nós com toda educação pedindo licença… O que deveríamos esperar??
Tudo, menos que se tratasse de um mendingo. A mendicância em Vancouver é bem maior do que eu pensava e, mais, para os brasileiros, ela é praticamente invisível, porque os mendingos se vestem melhor que a gente e, com o perdão da palavra, as vezes são até mais educados. Mas moram nas ruas e vivem de doações… e todo mundo doa e se preocupa de verdade com esse assunto. Bem diferente… Eu ainda vou entender isso melhor.