Chegando
Depois de uma viagem interminavelmente grande, um pé de mala quebrado, um amigo, algumas perguntas da imigração, duzentos mil brasileiros no avião, oceano atlântico e oceano pacífico, finalmente cheguei a Vancouver.
No último avião, um padre me acompanhava. E, embora eu não seja religiosa e ache tudo isso uma grande hipocrisia, adorei conversar com ele, que também é professor universitário de ciência política e adora fotografia. Eu, toda cheia de mim, antes de ser informada que ele tinha doutorado, fiquei explicando a situação do pré-sal e caças no Brasil, além da origem das favelas. Dentro de mim uma voz dizia “uau, olha como você está parecendo muito mais inteligente do que realmente é”. Hum! Aí o cara vai e me conta que já estudou no mundo inteiro e, obviamente, conhece os subterrâneos do Vaticano. Quem conhece aqueles porões, sem dúvida, sabe mais que a gente. Afinal, você acredita mesmo que queimaram a biblioteca de Alexandria???
Bom, para não ficar só nisso, perguntei sobre a vida dele, porque escolheu seguir essa “carreira”, e se não sente falta de algumas coisas. “Have you ever been in love”? Ele disse que sim, mas que evitava levar adiante qualquer sentimento neste sentido. Caraca, é tudo muito diferente. Como eu conseguiria uma coisa dessas…
Nesta mesma viagem, que era de Toronto para Vancouver, não servem refeição, mesmo sendo cerca de 4h flight. Você tem que comprar! E eu tentei evitar, mas no final, estava com tanta fome que gastei 7 dólares para bancar um sanduíche de picles, uma vez que o outro era de frango e eu não costumo comer frango. Ok, eu também não costume comer picles. Aliás, sempre tiro do big mac! Quando não acho só um picles no quarteirão ou no big, não arrisco comer até achar o outro para tirar e oferecer pro papis. Realmente não gosto. Mas um sanduíche de picles quando se está faminto é um rito de passagem. Agora eu sei valorizar mais as coisas. Oh, yeah.
Quando o avião sobrevoou esta linda cidade, comentei “uau, that’s a dream come true”. Ele bateu umas fotos minhas no avião ainda. Segurando o origami de passarinho que meu professor de simulada deixou de presente para mim durante a última prova do ano (aliás, o professor faz origamis enquanto vigia as provas. How cool is that?!).
Cheguei junto com outros brasileiros. Havia o tal do transfer com as plaquinhas nos esperando no aeroporto. Ele foi deixando cada um em casa.
Fiquei numa casa simples, mas muito bonitinha. A fachada amarela é da mesma cor das paredes do meu quarto. O menino de 11 da família veio abrir a porta. “Hey, are you Alex?”, “yeah”, “I’m your big sister!!!”. Ele riu. E me chamou para dentro.
Juntei as malas. E tomei o cuidado de entrar com o pé direito. Ali começava uma nova fase.
